A visão avisa. Um dia deixamos de conseguir ler o menu e vamos ao oftalmologista. A audição não funciona assim. Vai-se embora devagar, ao longo de anos, e o cérebro compensa tão bem que quase ninguém repara no momento em que começou.
O resultado é que muita gente passa bastante tempo a ouvir pior do que podia, convencida de que o problema é dos outros falarem baixo ou da televisão ter um som mau.
Este artigo explica o que se passa, quais os sinais a que vale a pena estar atento e o que se pode fazer para proteger a audição que ainda se tem. A Wells tem área de saúde e bem-estar, incluindo audiologia, para quem quiser fazer uma avaliação.

Porque é que a perda passa despercebida
Dentro do ouvido interno existem células responsáveis por transformar som em sinais nervosos. Quando essas células se danificam, não se regeneram. É um dano permanente.
A perda começa normalmente pelos sons agudos, que são precisamente os que dão inteligibilidade à fala. Consoantes como o s, o f e o t são as primeiras a ficarem difusas.
Daí aquela queixa tão comum: “eu ouço, só não percebo o que dizem”. Não é contraditório. O volume chega, a nitidez é que não.
E como a mudança é gradual, o cérebro adapta-se sem que nos apercebamos. Aumentamos a televisão dois pontos por ano e nunca reparamos que passámos de dez para vinte e cinco.
Sinais a que vale a pena estar atento
Nenhum destes serve como diagnóstico, mas se se reconhecer em vários, vale a pena fazer uma avaliação.
- Pede com frequência para repetirem o que disseram.
- Em restaurantes ou cafés com ruído, custa-lhe acompanhar a conversa.
- As pessoas com quem vive comentam o volume da televisão.
- Ao telefone, prefere sempre o mesmo ouvido.
- Ouve zumbidos ou apitos, sobretudo em silêncio.
- Sente-se cansado depois de conversas longas, porque está a fazer um esforço permanente para perceber.
Esse último ponto é o mais subestimado. Ouvir mal é cansativo, mesmo quando ainda se consegue acompanhar.
O maior erro do dia a dia: as cotonetes
Vale a pena dizer isto com clareza, porque continua a ser um hábito quase universal.
O canal auditivo limpa-se sozinho. A cera é produzida por uma razão, protege e hidrata a pele do canal, e é empurrada naturalmente para fora ao longo do tempo.
Ao introduzir uma cotonete, a maior parte da cera é empurrada para dentro em vez de sair. Forma-se um tampão mais compacto e mais fundo, mais difícil de remover, e existe ainda o risco de irritar a pele ou de lesionar o tímpano.
O correto é limpar apenas a parte exterior da orelha, com a toalha, depois do banho. Se sentir o ouvido tapado ou com a audição abafada, deve ser um profissional a avaliar, e não uma cotonete nem uma vela de ouvido, que não têm qualquer eficácia comprovada.
O ruído é o fator que mais controla
A idade tem o seu papel, mas a exposição ao ruído é a causa evitável mais importante. E é cumulativa, ou seja, soma-se ao longo da vida.
Os auscultadores são o caso mais frequente hoje em dia. A regra prática mais divulgada é a dos 60 por 60: não passar dos 60 por cento do volume máximo e fazer pausas ao fim de cerca de 60 minutos.
Um teste simples: se quem está ao seu lado consegue ouvir a sua música, está alto de mais.
Os auscultadores com cancelamento de ruído ajudam, curiosamente, porque quem os usa tende a baixar o volume. Grande parte do excesso acontece quando se aumenta o som para tapar o barulho do metro ou da rua.
Fora dos auscultadores, os riscos habituais são concertos, discotecas, ferramentas elétricas, cortadores de relva e desporto motorizado.
Proteger é mais fácil do que recuperar
Como o dano não se reverte, a proteção é praticamente tudo o que temos.
Para concertos e ambientes com música alta, existem tampões concebidos para reduzir o volume sem distorcer o som. Não abafam a música, apenas baixam o nível.
Para bricolage, jardinagem ou obras, protetores auriculares simples resolvem. Vinte minutos com uma rebarbadora sem proteção contam bastante mais do que parece.
E depois de exposição a som muito alto, o ouvido agradece algumas horas de silêncio. Se ficar com zumbido ou com a sensação de ouvido tapado depois de um concerto, isso é um sinal de que houve esforço a mais.
Quando fazer uma avaliação
Não é preciso ter uma queixa grave para fazer um rastreio auditivo. É um exame rápido, indolor e não invasivo.
Faz sentido fazê-lo se se reconheceu em alguns dos sinais acima, se trabalha ou trabalhou em ambientes ruidosos, se tem diabetes ou outras condições associadas à audição, ou simplesmente se tem mais de 50 anos e nunca fez nenhum.
Ter um resultado de referência é útil por si só. Repetindo o exame alguns anos depois, é possível comparar e perceber se houve evolução, em vez de adivinhar.
Vale ainda a pena saber que a audição não afeta apenas a comunicação. Vários estudos associam a perda auditiva não tratada a maior isolamento social e a um risco acrescido de declínio cognitivo com a idade. A relação é complexa e continua em investigação, mas é mais um motivo para não deixar arrastar anos a fio.
Situações que exigem atenção rápida
Há casos em que não se deve esperar pela próxima consulta de rotina.

Uma perda de audição súbita, sobretudo num só ouvido, deve ser avaliada com urgência, porque nestas situações o tempo até ao tratamento faz diferença. O mesmo se aplica a dor intensa, a corrimento no ouvido, a tonturas acentuadas ou a um zumbido que aparece de repente apenas de um lado.
Nestes casos, o caminho é contactar um médico ou a linha SNS 24, no 808 24 24 24, e não esperar para ver se passa.
Em resumo
A audição perde-se em silêncio e não volta. Fique atento aos sinais, sobretudo à dificuldade em perceber conversas em ambientes com ruído. Deixe as cotonetes de lado e limpe apenas a parte exterior da orelha. Baixe o volume dos auscultadores e faça pausas. Use proteção em concertos e ferramentas. E faça um rastreio, mesmo que só para ter um ponto de partida.
É uma daquelas áreas da saúde em que quase tudo o que funciona é prevenção. Vale a pena tratá-la com a mesma naturalidade com que se marca uma consulta de olhos.



