Quase todas as casas têm uma gaveta. Lá dentro há uma caixa de comprimidos a meio sem bula, um creme que já ninguém sabe para que servia, um termómetro que talvez funcione e adesivos com a cola seca.
Funciona bem até ao dia em que faz falta. Normalmente às onze da noite, com um corte no dedo ou uma criança com febre, e ninguém encontra nada.
Organizar isto leva uma hora e faz-se uma vez por ano. Aqui fica como, o que deve mesmo existir em casa e o que fazer ao que sobra. Para reforçar o que faltar, a Wells tem uma área de parafarmácia e bem-estar com o essencial.

Primeiro erro: a casa de banho
É onde quase toda a gente guarda os medicamentos, e é o pior sítio da casa para o fazer.
O banho enche a divisão de vapor e as temperaturas oscilam várias vezes por dia. Calor e humidade degradam comprimidos, xaropes e cremes mais depressa do que o prazo de validade sugere, mesmo dentro da embalagem fechada.
O sítio certo é uma divisão fresca, seca e sem luz direta. Um armário do corredor, uma prateleira alta do quarto ou uma caixa fechada num móvel funcionam muito melhor.
Se houver crianças em casa, esse local deve estar fora do alcance e, de preferência, fechado. Vale para tudo, incluindo o que parece inofensivo.
O que deve existir sempre
Não é preciso montar um posto médico. Um conjunto pequeno e bem escolhido resolve a maior parte das situações domésticas.
- Material de penso: adesivos de vários tamanhos, compressas esterilizadas, ligadura, adesivo em rolo.
- Antisséptico para limpar feridas, e soro fisiológico, que serve tanto para lavar olhos e nariz como para limpar pequenos cortes.
- Termómetro que funcione, com pilhas boas. Um termómetro sem pilha é o mesmo que não ter.
- Pinça e tesoura pequena, guardadas só para este efeito.
- Luvas descartáveis, que quase ninguém tem e que fazem diferença ao tratar uma ferida.
- Um analgésico e antipirético de venda livre, daqueles que costuma usar e que o farmacêutico lhe indicou.
- Medicação crónica de quem vive na casa, com um pequeno stock de reserva.
Junte também uma lista escrita com contactos úteis, incluindo a linha SNS 24, o 808 24 24 24, e as alergias de cada pessoa da casa. Numa emergência, ninguém se lembra dessas coisas com clareza.
Duas caixas em vez de uma
Uma organização que funciona bem: separar o que se usa em casa do que anda consigo.
A caixa de casa fica completa e arrumada no sítio fresco. A caixa portátil, mais pequena, leva o essencial de pensos, antisséptico e o que usa com frequência, e vai no carro ou na mochila.
Atenção a um pormenor sobre o carro: o porta-luvas atinge temperaturas altíssimas no verão português. Medicamentos não devem ficar lá permanentemente. Material de penso, sim.
Verificar prazos duas vezes por ano
Marque duas datas fáceis de lembrar, por exemplo a mudança da hora em março e em outubro. Nesses dias, esvazie a caixa em cima da mesa e verifique tudo.
Olhe para o prazo de validade impresso, mas também para o estado do produto. Comprimidos com aspeto alterado, xaropes com cheiro ou cor diferente e cremes que se separaram devem sair, mesmo dentro do prazo.
Repare ainda em quantos dias um produto dura depois de aberto. Colírios, xaropes e alguns cremes têm um prazo bem mais curto depois da primeira utilização do que o que vem impresso na caixa. Escrever a data de abertura no rótulo com uma caneta resolve a dúvida para sempre.
O que fazer ao que sobra
Esta parte é importante e continua a ser mal feita em muitas casas.
Medicamentos fora de prazo ou que já não usa não vão para o lixo comum, nem para a sanita. Podem contaminar solos e águas, e não é assim que devem ser tratados.
Em Portugal existe o sistema VALORMED. Junta-se tudo num saco, incluindo embalagens vazias e blisters, e entrega-se numa farmácia aderente, que tem um contentor próprio para o efeito. É gratuito e demora um minuto.
Aproveite a ida para tirar dúvidas sobre o que ficou na caixa. Os farmacêuticos respondem a este tipo de perguntas todos os dias.
Com crianças em casa
Três regras que fazem toda a diferença.
A primeira é a arrumação: em altura, fechado, e não na mesa de cabeceira. As embalagens ditas resistentes a crianças atrasam, não impedem.
A segunda é a linguagem. Nunca apresente um medicamento como se fosse um doce para convencer a criança a tomá-lo. É uma associação que pode levá-la a procurar a caixa sozinha mais tarde.
A terceira é a dosagem. Em crianças, as doses dependem do peso e da idade, e nunca se deve usar a medida de um adulto nem reaproveitar sobras de uma receita anterior. Perante qualquer dúvida, contactar a linha SNS 24 ou o médico é sempre o caminho certo.
Antes de viajar
Uma caixa de viagem prepara-se em dez minutos e evita procurar farmácia num sítio desconhecido.
Leve a medicação crónica em quantidade suficiente para toda a viagem, com margem para atrasos, e sempre na bagagem de mão em caso de avião. Junte pensos, antisséptico e protetor solar, e leve as embalagens originais para não haver dúvidas sobre o conteúdo.
Se viajar para fora do país, guarde uma cópia digital das receitas no telemóvel. Ocupa nada e pode resolver muita coisa.

Uma nota sobre automedicação
Ter uma farmácia de casa bem organizada serve para situações menores: um corte, uma dor de cabeça pontual, uma queimadura ligeira do sol.
Não serve para reaproveitar antibióticos que sobraram de uma receita anterior, nem para tratar sintomas que se prolongam. Antibióticos, em particular, devem ser sempre prescritos e tomados até ao fim, e usá-los por conta própria contribui para um problema de saúde pública que já é sério.
Sempre que os sintomas duram, agravam ou aparecem em crianças pequenas, grávidas ou pessoas com doenças crónicas, a resposta certa é falar com um profissional. Uma caixa bem arrumada é um apoio, não um substituto.
Em resumo
Tire tudo da casa de banho e guarde num sítio fresco, seco e fora do alcance das crianças. Reduza a uma lista curta de material realmente útil. Escreva a data de abertura nos produtos que duram menos depois de abertos. Verifique tudo duas vezes por ano e entregue o que sobra numa farmácia aderente.
Uma hora de trabalho, e da próxima vez que precisar às onze da noite, vai encontrar o que procura à primeira.



